SOUL AND TASTE
Um espaço onde a gastronomia se encontra com o bem‑estar, unidos pela emoção e pelo detalhe. Aqui vivem sabores autênticos, alojamentos que acolhem, SPA's que regeneram e experiências vínicas que contam histórias com alma. Porque cada prato guarda uma memória, cada lugar inspira descanso e cada momento se transforma em experiência para recordar.

Tia Alice — meio caminho, destino certo

Fica praticamente a meio caminho entre Lisboa e Porto. Há quem vá de propósito, há quem vá em procissão de fé gastronómica, e há quem simplesmente desvie a rota para uma bela refeição. A história de D. Alice Marto que abriu o restaurante em 1988, já com 53 anos daria um livro que saberia tão bem como os seus pratos caseiros: de alma cheia, feitos de memórias e de histórias vividas à volta da gastronomia tradicional, daqueles que não deixam ninguém indiferente.
O restaurante, em Fátima, é uma pequena obra arquitetónica, quase como se tivesse sido cavado na rocha. Bem decorado, sóbrio, intemporal, o Tia Alice é uma pérola que não perde características com a idade — pelo contrário, ganha profundidade.
Os pratos que fazem a casa
Do mar:
Bacalhau Gratinado
Bacalhau Gratinado com Camarão
Açorda de Camarão
Açorda de Bacalhau
Arroz de Robalo e Tamboril
Da terra e do forno:
Arroz de Pato
Vitela Assada em Forno a Lenha
Arroz de Feijão à Transmontana
Chanfana em Forno a Lenha — e quando há, é uma especialidade que por si só justifica a viagem
As sobremesas que fecham o ritual
Queijo da Serra amanteigado
Bolo de Noz e Ovos Moles
Pudim de Ovos
O jardim foi requalificado, mas os sabores não, esses mantêm-se fiéis à casa e à sua história. Contemplar o pôr do sol antes da refeição, com um copo de vinho na mão, é um convite ao prazer simples e absoluto.
O serviço continua simpático, as reservas continuam quase impossíveis, a casa está sempre cheia e as caras felizes são, na maioria, de clientes frequentes que já não dispensam a visita. No Tia Alice, não se vai apenas comer:
vai-se pertencer.

SALA de CORTE LISBOA
Sala de Corte, LisboaRestaurante considerado entre os 100 melhores do mundo para se comer carne. Desceu alguns pontos (18) na lista do ultimo ano.Há uns trinta anos ou menos, frequentei umas cervejarias na praça D.Luis, onde se situa o mercado da Ribeira, onde parava para almoçar umas bifanas e uns salgados.Hoje zona modernaça, todo o jardim ao centro da praça polvilha de vida, com crianças, turistas, transeuntes de todos os géneros.Na zona oposta ao Mercado da Ribeira, uma esplanada envergonhada dá acesso a um restaurante de carne luxuoso, decorado tal qual brasserie parisiense.Sala ampla, balcão ladeado de bancos altos, terminando ao fundo com a sala mais informal, fresca, de tons verdes, que se opõe ao corrido de mesas recortadas pela fila de candeeiros que se encostam à parede.Iluminação com tons quentes, leva-nos a entrar no imaginário das grandes cervejarias clássicas de Paris.Com a montra de carnes maturadas em forma de exposição no lado direito da entrada, fica-se logo com a ideia do conceito principal do restaurante.Carne, carne ..uma ode à carne, com peças de bovino vermelhas escuras a atrair apreciadores de uma boa costeleta.Para reservar requer cartão de crédito, com eventuais penalizações para quem se atrasar ou falhar a presença na hora marcada.A fila na porta de jovens turistas estrangeiros que seguem roteiros dos influencers, não deixa dúvidas de que se trata de restaurante da moda, a decoração cara e faustosa tal como a formalidade dos funcionários de sala, evidencia de que se trata de um restaurante impessoal.Uma vez sentados, o escanção de serviço propõe um champagne francês que despeja no flute em género de oferta para aguçar o apetite.Logo, veio uma colaboradora dedicada àquela parte da sala, partilhou a carta que apresentava 100% carne e acompanhamentos..tudo que seja peixe fica fora da ementa…compreen-se…afinal é uma steakhouse.Entretanto, o chef ofereceu um amuse bouche de tataki de atum, deve ter sido o único peixe que entrou pela cozinha, mas que estava delicioso com o molho coreano que o temperava.
Carta bem apresentada com os diversos tipos de corte, pouca informação detalhada na ementa sobre a origem e graus de qualidade da Wagyu por exemplo. Os preço da carne são pouco claros já que algumas peças são ao quilo e outros por 200g que obriga a cálculos e a perceber que as referências das gramas são tão ou mais caras do que os valores absurdos da carne que já achava cara ao quilo. A maioria das propostas custam mais do que 250€/ kgs e não estou a falar de koba ou de wagyu este ultimo entre os 550€/kg e os 950€ .Optei então por um corte mais económico, a 90€/kg porque o t-bone a 100€ / kg demasiado para mim, (minimo de 1 kg o que será para duas pessoas), demasiado já que queria partilhar mais alguma coisa.Vieram dois croquetes fabulosos de 7 €o par, e um pica-pau que era vulgar com peças de carne com corte grosso, interessantes macias qb , molho bem confecionado, picles equilibrados e batata palha caseira a decorar .
Reparámos que os acompanhamentos eram à parte pelo que escolhemos então um brás de cogumelos que era delicioso com boa apresentação, num tachinho da Staub , dose bem servida como acompanhamento. Brás de cogumelos com cremosidade do ovo, espargos selvagens , e batata palha diferente do pica pau .Também um tachinho de legumes, bem assados e temperados.
As batatas fritas são igualmente extra, mas valem a pena, bem fritas e de corte caseiro.No vinho , os preço das garrafas, alguns são proibitivos numa lista vasta e completa, pelo que optei por ao copo, da Quinta dos Coquinhos que propunha um valor razoável de 8€ copo.Lá veio a carne, bem apresentada com a assadura adequada ao meu pedido de mal passado.Degradè da carne tostadinha e quase crua ao centro.Apresentada numa tábua, com tomatinhos cherrie de decoração e um dos molhos incluídos.A mesa revelou-se inadequada ao tipo de empratamento e já sobravam, copos, tachinhos e molhinhos que não cabiam na pequena mesa de mármore.Esta carne maturada, costeleta de 650g que serviu para duas pessoas. , e que não sei a origem, revelou-se macia junto ao osso e rija na periferia.
Não era má, pelo contrário, mas qualquer barrosã, arouquesa ou mirandesa são mil vezes melhores.Claro que tinha outras opções de corte e carne na carta, pelos vistos andei pelo "baratinho" … talvez uma vazia ou o Chateaubrian tivessem sido melhores escolhas.Os dois molhos escolhidos estavam bem, o Chimichurri e o de cogumelos, ambos bem confecionados, de acordo o valor do chef.
Para terminar um bolo de queijo, um top, tenho de reconhecer, adorei a sobremesa, bem apresentada, com molho de frutos silvestres , textura fina do cheesecake..Quando chega a conta, vinha o total com gratificação sugerida e incluída automaticamente no total, ao que solicitei a sua retirada, criando com isto um serviço de mesa a terminar mal e muito errado.. a despedida foi péssima com pessoal de sala mal disposto a fazer um frete.Nota que o atendimento foi bom sem ser espetacular até ao momento gratificação.Espaço bonito, conceito interessante para quem aprecia carne, mas relação preço qualidade deficitária.

Chic do Rêgo, Lisboa
Há locais que fazem parte da nossa Lisboa Secreta. Partilhá‑los é sempre correr o risco de lhes roubar o elan e a exclusividade silenciosa de quem conhece os recantos gastronómicos da cidade. Mas há exceções.
Quando a regularidade e a qualidade são inabaláveis, podemos revelar o segredo sem medo de perder amigos.
O Chic do Rêgo é um dos últimos redutos da comida portuguesa genuína no centro de Lisboa. Aqui prova‑se tradição pura, onde o aroma do caseiro ainda vem em panela para a mesa, a frigideira vem a cantar as iscas como manda a regra, o bacalhau no ponto, o arroz de lingueirão o melhor num raio de 300 km que por vezes se aventura a acompanhar os famosos jaquinzinhos, formando um par improvável mas absolutamente nosso.
Depois vêm a posta Mirandesa, o bife raspado, a carne de porco à alentejana, a cabeça de garoupa, e os queijos da Beira e do Alentejo, sempre escolhidos com critério.
O Manuel, proprietário orgulhoso, vive numa azáfama serena entre sorrisos e atenção aos clientes. Antes de abrir portas, já passou pelo mercado de Alvalade garantir a qualidade do produto faz parte da liturgia diária.
Na cozinha, a mão firme que não deixa sair nada que não esteja nos conformes. Tudo a preços justos, como deve ser. A garrafeira acompanha o espírito da casa: há sempre uma garrafa certa para cada gosto e para cada carteira, também ela a preços honestos.
Continua a ser o meu restaurante favorito. Não o estraguem, por favor.
O FARPAS
A cozinha tradicional parece estar em declínio, com muitos restaurantes a fechar ou a optar por caminhos mais económicos. Felizmente, entre o Montijo e Alcochete, na localidade de S. Francisco, o Farpas surge logo à entrada da vila como uma exceção bem‑vinda.
Ia inicialmente direcionado para a Taberna dos Cabrões, mas a espera anunciada levou‑me a procurar alternativa e ainda bem que assim foi.
A entrada é discreta, a sala relativamente pequena e a decoração marcadamente tauromáquica, algo que poderá afastar alguns defensores dos animais. Mesas atoalhadas de papel e guardanapos de qualidade.
Ainda assim, o ambiente é acolhedor: mesas bem espaçadas e uma simpatia genuína por parte da equipa.
A ementa é extensa sem ser dispersa, com muitas opções tradicionais. As entradas são interessantes — chocos, morcela, chouriço assado ou as Migas à Farpas, que recomendo vivamente como acompanhamento. As doses são generosas e servidas em telha, uma assinatura da casa.
Nos pratos de peixe, encontramos o Bacalhau à Farpas (uma interpretação do bacalhau à minhota), a espetada de gambas, o polvo à lagareiro, o bacalhau assado ou o choco frito em dose completa. Nas carnes, a oferta é ainda maior: grelhada mista (rica em carne de porco, secretos, entremeada e bife de vaca), picanha, posta de vitela, javali, bochechas com migas, entre outras.
A refeição começou com uma salada incluída na dose fresca, bem temperada e com excelente aspeto. A entrada de choco revelou‑se muito bem servida, acompanhada por um molho tártaro competente; com um extra de salada, seria mais do que suficiente como refeição leve.
O ponto menos forte da casa talvez seja a carta de vinhos, curta e com poucas opções, incluindo apenas um branco o vinho de pressão.
Saí muito satisfeito e recomendo este restaurante sem hesitação.

Casa Ideal
A CASA IDEAL,
Trafaria.
Para lá da Ponte 25 de Abril, na pequena vila da Trafaria, entre becos estreitos e casas baixas de antigos pescadores, encontramos o restaurante Casa Ideal.
A esplanada encostada ao edifício tenta equilibrar um interior pequeno, de luz contida mas suficiente, onde a acústica da sala torna a conversa um exercício de proximidade. Ainda assim, a casa conquista desde o primeiro contacto telefónico: há simpatia, há tradição, e aquele acolhimento português em que o conforto não é prioridade, mas a vontade de regressar instala-se sem esforço.
Um dos últimos redutos da cozinha portuguesa sem artifícios, a ementa oscila entre o Alentejo e o peixe fresco que parece saltar das margens do Tejo ali ao lado. As entradas começam pelas chamuças e pelos pastéis de bacalhau vulgares, é certo, mas eficazes para sossegar o estômago de quem chega. No cesto do pão, a variedade entre pão regional e broa de passas revela um cuidado discreto.
Há um ritual pessoal que mantenho nesta casa: os peixinhos da horta. Feijões-verdes grandes, fritura caseira sem técnica apurada, polme generoso a envolver a verdura, quase uma viagem à cozinha da mãe, onde a técnica é secundária e o sabor manda.
Os chocos fritos fogem da polme típica de outros restaurantes, mas chegam perfeitos: sem excesso de óleo, consistentes, estaladiços onde devem ser.
A mesa ganha amplitude quando se cruza o Alentejo com o mar. Pedimos lulas à lagareiro e carne de porco à alentejana. As lulas, fresquíssimas e recomendadas pela proprietária, chegam bem servidas, com batata a murro, azeite abundante, alho no ponto e coentros a perfumar. A carne, bem frita e temperada, acompanha-se de amêijoa saborosa, que eleva o prato.
Nas sobremesas, convivem opções da casa com escolhas mais comerciais, como os gelados. Para fechar, um medronho fresco cumpre a função de limpar o palato. A garrafeira é curta, mas suficiente, com destaque natural para brancos e verdes nada que desaponte num restaurante deste perfil.
Um local a registar e, sobretudo, a voltar.
Quando a Chuva Me Levou ao Nobre
A manhã chuvosa convidava a procurar refúgio e conforto. No Campo Pequeno, o Nobre continua a ser uma das casas lisboetas onde essa promessa se cumpre.
À entrada, Justa e Ana mantêm a consistência que as distingue há décadas, enquanto José Nobre recebe com a cordialidade profissional que já é marca da casa.
A sala mais reservada, onde fiquei instalado, reforça a sensação de recolhimento que o dia pedia.
A surpresa do serviço veio de Trás‑os‑Montes: o fumeiro de Vinhais marcou presença num alinhamento raro na capital. À mesa chegaram paio e linguiça assada, ambos artesanais, intensos e fiéis à matriz transmontana. Um início robusto, que prepara o palato para o que se segue.
A entrada o Caldinho das Casulas, onde a Chef Justa recupera um clássico de raiz: arroz com cascas de feijão‑verde e enchidos de Vinhais.
É um prato de memória, simples na aparência, mas profundo no sabor, que demonstra a capacidade da cozinha do Nobre em tratar a tradição com rigor.
No prato principal, o destaque do dia:
Cuscus transmontano. Produzido de forma artesanal, à base de trigo‑sarraceno, este Cuscus não se limita ao papel de acompanhamento. Assume protagonismo, absorve o sabor dos enchidos e das castanhas e apresenta-se como um prato completo, equilibrado e fiel à sua origem.
A sobremesa — fondant de abóbora — encerra a refeição com leveza e doçura contida, mantendo a linha de conforto que marcou todo o percurso.
O Nobre confirma, mais uma vez, a sua capacidade de unir técnica, memória e hospitalidade num registo que Lisboa reconhece e continua a procurar.

A Francesinha no Aloquete
em Santos, Lisboa
A génese da "Francesinha" dispensa grandes explicações: nasceu no Porto, que a reivindica como património próprio. Mas se a cidade a viu nascer, também tem sido palco de algumas das suas maiores distorções. Não por se tratar de um prato fino, nunca o foi, mas porque depende de produtos cuja qualidade, quando cai, arrasta consigo todo o conjunto.
Ainda assim, há quem resista.
No Porto, onde a tradição se mantém mais íntegra, e em Lisboa, onde convivem interpretações competentes com autênticas caricaturas: sandes submersas em molhos de ketchup com picante, apresentadas como "Francesinha" apenas pela silhueta.
Recentemente, um amigo lisboeta levou‑me à Taberna Londrina, que considerava servir a melhor Francesinha da capital e arredores. A experiência, embora honesta, dificilmente mereceria um selo DOP, caso existisse.
Já no Marco, agora rebatizado como Aloquete, numa operação de branding que pretende sinalizar refinamento, encontro algo mais próximo da matriz portuense.
A carta apresenta várias versões, e continuo a considerar estas as mais fiéis ao que conheci na Invicta. Prefiro as que assentam em bife, uma adaptação posterior, em detrimento da versão com carne assada.
A Batatas Fritas são caseirinhas, bem fritas e com volume, quase diria que à maneira antiga.
Os produtos são de qualidade evidente, e isso sente‑se em cada garfada envolvida num molho consistente, assente em caldo de carne, que se mantém estável visita após visita. Saio sempre satisfeito. E cheio. O colesterol, esse, que se entenda comigo mais tarde.
Daí até à Nanarella, para mim a melhor gelataria da zona, mesmo ali perto da Assembleia da Republica. Faço o percurso quase em modo ritual. Ajuda na digestão e fecha a refeição com a dignidade que o prato exige.
Nobre,
...e aos domingos é dia de...Cozido à Portuguesa
Já não precisa de apresentações: O Nobre serve aos domingos um cozido à portuguesa como poucos. Num prato tradicional que tem sido tantas vezes maltratado em inúmeros restaurantes onde, para o oferecer a preços acessíveis, se recorre a ingredientes de fraca qualidade aqui mantém‑se a autenticidade e o respeito pela receita.

No Nobre, a excelência dos produtos é evidente, quase como se cada garfada fosse uma pequena degustação. Os enchidos, vindos da zona de Arganil, são todos caseiros e de sabores genuínos. O chouriço, consistente e de sabor equilibrado, com textura firme, combina na perfeição com a farinheira ou com a morcela de arroz. Já o chouriço de sangue destaca‑se pelo toque de vinagre que refresca a pasta tradicional envolta na tripa.
Perdidos nos enchidos, não esquecer as restantes carnes que fazem parte deste buffet de luxo, são elas a carne de vaca e a galinha do campo, o do porco temos o entrecosto, a orelha e o chispe do mesmo que dão aquele toque do fruto proibido delicioso e que torna o nosso cozido tradicional tão delicioso.
As verduras, de sabor intenso, são cozidas de forma impecável, sem perderem as suas características nem a sua identidade. Para acompanhar, optámos por um vinho da zona da Régua, o Consensual Vinhas Velhas que no Nobre são etiquetados com a m,arca de confiança da Chef Justa, vinho que se revelou encorpado e ideal para enfrentar o chispe e os enchidos do cozido.
O cozido no Nobre é servido aos domingos e requer reserva antecipada. O buffet é supervisionado pela Chef Justa, que confia à irmã Ana a arte de manter a cozinha em perfeito equilíbrio, para deleite de uma clientela fiel e numerosa. As mesas, convenientemente distribuídas pelas várias salas do restaurante junto ao Campo Pequeno, recebem os visitantes com o profissionalismo e a experiência do Sr. António Nobre.

BAHR
Largo de Camões, Lisboa
Novo Menu 2025/2026
O novo menu de Inverno reflete a identidade do restaurante: uma cozinha que valoriza a sazonalidade, o território e a autenticidade dos sabores. Cada prato nasce de um princípio simples e consistente — trabalhar com o que a estação oferece no seu melhor momento, respeitando o ciclo natural dos ingredientes e a sua expressão mais pura.
A filosofia do Chef Fábio Pereira assenta na memória. As raízes familiares, os sabores que marcaram a infância e os gestos transmitidos de geração em geração são o ponto de partida para a criação contemporânea. Não se trata de replicar tradições, mas de reinterpretá‑las com técnica, rigor e sensibilidade. O resultado é uma cozinha que combina conforto e modernidade, onde cada elemento do prato tem uma função clara e uma história que o sustenta.
O menu de Inverno apresenta combinações que privilegiam profundidade de sabor, texturas equilibradas e uma ligação evidente ao território português. Do mar chegam peixes e mariscos trabalhados com precisão; da terra surgem legumes e plantas que ganham protagonismo; das memórias familiares emergem referências subtis que dão coerência ao conjunto. É uma cozinha que procura ser honesta, consciente e relevante, mantendo sempre o foco no sabor.
Este menu representa, assim, a evolução natural do trabalho do Chef Fábio Pereira,: uma cozinha que olha para o passado como fonte de inspiração e para o presente como espaço de criação responsável.
Uma cozinha que se afirma pela identidade e pela clareza, e que convida cada cliente a descobrir um Inverno pensado com intenção, técnica e respeito pela origem dos ingredientes.
Ritz,
Póvoa do Varzim
Ritz: tradição, sabor e identidade local
O nome Ritz carrega responsabilidade, mesmo quando se instala numa terra tradicionalmente de pescadores, onde o jogo veio para ficar e dinamizar. Situado no coração da cidade, em plena rua central, o espaço revela-se confortável e acolhedor. A decoração náutica transporta-nos para o interior de um veleiro, em que só falta o baloiçar para completar a ilusão.
À mesa de quatro lugares, fixa e firme, o conforto é garantido para quem está em forma; já os mais barrigudos poderão sentir alguns desafios.
O serviço, rápido e atento, não deixou margem para hesitações: na dúvida, recomendaram uma meia francesinha iguaria do Porto que tanto aprecio e sobre a qual sou exigente, talvez por conhecer bem a sua origem.
Para acompanhar, a cerveja Poveira, uma lager artesanal surpreendentemente frutada e leve, deliciosa e bem recomendada. O espaço, com distância adequada entre mesas, acomoda grupos reduzidos até seis pessoas de forma perfeita e descontraída. A frequência de clientes locais confirma a autenticidade do lugar: um restaurante que não vive apenas de nome, mas da confiança e da preferência de quem ali encontra sabor e identidade.
A francesinha chegou rapidamente, servida num prato adequado ao molho. Este revelou-se mais adocicado do que gostaria, mas ganhou vida com o picante caseiro, que me aproximou da versão que tanto aprecio. Sem ser a melhor francesinha que já provei, também não envergonhou, cumpriu o papel de satisfazer e deixar memória.

Último Porto
Doca de Alcantara , Lisboa
Dezembro de 2025
Na doca de Alcântara, onde a terra se rende ao Tejo e o rio avança, sereno, entre Lisboa e Almada, a ponte ergue-se como vigia de ferro e luz.
Não é uma paisagem dócil: entre estivas e porta‑contentores, o cenário guarda a rudeza fabril que, paradoxalmente, lhe confere encanto.
É nesse contraste que nasce a verdadeira tasca lisboeta, instalada num edifício Art Deco, cuja elegância discreta contrasta com a aspereza industrial em redor.
A zona, marcada por guindastes e contentores, é de facto um espaço quase de improviso, onde o quotidiano se mistura com a surpresa de encontrar um reduto de sabores autênticos.


Aqui, o peixe é rei e a refeição transforma-se em ritual. A esplanada, aberta como espada sobre o cais, convida ao olhar demorado sobre o rio, enquanto o interior, mais comedido, oferece o conforto suficiente para que o descanso acompanhe o prato.
O ambiente é de tertúlias espalhadas pelos clientes residentes, que não resistem à chamada do sol na esplanada e ao sabor que sai da grelha sempre activa. O carvão, incansável, confere aos peixes e moluscos um sabor inigualável, que chega às mesas acompanhado de verduras abundantes e temperos simples — apenas o necessário para deixar falar o que a terra e o mar nos dão de melhor.
A simpatia dos colaboradores vai-se sentindo nas piadas certeiras e na disponibilidade constante, criando uma atmosfera de familiaridade e calor humano. É um local a conferir e a usufruir como um dos últimos redutos da nossa gastronomia, onde o sabor simples e autêntico se alia à memória viva das tascas lisboetas.
Aqui, o sabor não se esconde atrás de ornamentos: é direto, como a paisagem que o rodeia. O Tejo passa, os guindastes vigiam, e no prato, o peixe fresco devolve ao corpo a lembrança de uma cidade que sempre viveu entre o mar e a terra.
