Barriga de Porco / BAHR
Barriga de Porco / BAHR

Um espaço onde a gastronomia se encontra com o bem‑estar, unidos pela emoção e pelo detalhe. Aqui vivem sabores autênticos, alojamentos que acolhem, SPA's que regeneram e experiências vínicas que contam histórias com alma. Porque cada prato guarda uma memória, cada lugar inspira descanso e cada momento se transforma em experiência para recordar.


O Farpas

S. Francisco/ Montijo

Espetada Mista/O FARPAS
Espetada Mista/O FARPAS

O FARPAS

Telefone: 919 930 083


A cozinha tradicional parece estar em declínio, com muitos restaurantes a fechar ou a optar por caminhos mais económicos. Felizmente, entre o Montijo e Alcochete, na localidade de S. Francisco, o Farpas surge logo à entrada da vila como uma exceção bem‑vinda.

Ia inicialmente direcionado para a Taberna dos Cabrões, mas a espera anunciada levou‑me a procurar alternativa  e ainda bem que assim foi. 

A entrada é discreta, a sala relativamente pequena e a decoração marcadamente tauromáquica, algo que poderá afastar alguns defensores dos animais. Mesas atoalhadas de papel e guardanapos de qualidade.

Ainda assim, o ambiente é acolhedor: mesas bem espaçadas e uma simpatia genuína por parte da equipa.

A ementa é extensa sem ser dispersa, com muitas opções tradicionais. As entradas são interessantes — chocos, morcela, chouriço assado ou as Migas à Farpas, que recomendo vivamente como acompanhamento. As doses são generosas e servidas em telha, uma assinatura da casa.

Nos pratos de peixe, encontramos o Bacalhau à Farpas (uma interpretação do bacalhau à minhota), a espetada de gambas, o polvo à lagareiro, o bacalhau assado ou o choco frito em dose completa. Nas carnes, a oferta é ainda maior: grelhada mista (rica em carne de porco, secretos, entremeada e bife de vaca), picanha, posta de vitela, javali, bochechas com migas, entre outras.

A refeição começou com uma salada incluída na dose  fresca, bem temperada e com excelente aspeto. A entrada de choco revelou‑se muito bem servida, acompanhada por um molho tártaro competente; com um extra de salada, seria mais do que suficiente como refeição leve.

O ponto menos forte da casa talvez seja a carta de vinhos, curta e com poucas opções, incluindo apenas um branco  o vinho de pressão.

Saí muito satisfeito e recomendo este restaurante sem hesitação.


Casa Ideal 

Lulas à Lagareiro
Lulas à Lagareiro

A CASA IDEAL, 

Trafaria.

Para lá da Ponte 25 de Abril, na pequena vila da Trafaria, entre becos estreitos e casas baixas de antigos pescadores, encontramos o restaurante Casa Ideal. 

A esplanada encostada ao edifício tenta equilibrar um interior pequeno, de luz contida mas suficiente, onde a acústica da sala torna a conversa um exercício de proximidade. Ainda assim, a casa conquista desde o primeiro contacto telefónico: há simpatia, há tradição, e aquele acolhimento português em que o conforto não é prioridade, mas a vontade de regressar instala-se sem esforço.

Um dos últimos redutos da cozinha portuguesa sem artifícios, a ementa oscila entre o Alentejo e o peixe fresco que parece saltar das margens do Tejo ali ao lado. As entradas começam pelas chamuças e pelos pastéis de bacalhau  vulgares, é certo, mas eficazes para sossegar o estômago de quem chega. No cesto do pão, a variedade entre pão regional e broa de passas revela um cuidado discreto.

Há um ritual pessoal que mantenho nesta casa: os peixinhos da horta. Feijões-verdes grandes, fritura caseira sem técnica apurada, polme generoso a envolver a verdura, quase uma viagem à cozinha da mãe, onde a técnica é secundária e o sabor manda. 


Os chocos fritos fogem da polme típica de outros restaurantes, mas chegam perfeitos: sem excesso de óleo, consistentes, estaladiços onde devem ser.

A mesa ganha amplitude quando se cruza o Alentejo com o mar. Pedimos lulas à lagareiro e carne de porco à alentejana. As lulas, fresquíssimas e recomendadas pela proprietária, chegam bem servidas, com batata a murro, azeite abundante, alho no ponto e coentros a perfumar. A carne, bem frita e temperada, acompanha-se de amêijoa saborosa, que eleva o prato.

Nas sobremesas, convivem opções da casa com escolhas mais comerciais, como os gelados. Para fechar, um medronho fresco cumpre a função de limpar o palato. A garrafeira é curta, mas suficiente, com destaque natural para brancos e verdes  nada que desaponte num restaurante deste perfil.

Um local a registar e, sobretudo, a voltar.



Quando a Chuva Me Levou ao Nobre

A manhã chuvosa convidava a procurar refúgio e conforto. No Campo Pequeno, o Nobre continua a ser uma das casas lisboetas onde essa promessa se cumpre. À entrada, Justa e Ana mantêm a consistência que as distingue há décadas, enquanto José Nobre recebe com a cordialidade profissional que já é marca da casa. A sala mais reservada, onde fiquei instalado, reforça a sensação de recolhimento que o dia pedia.

A surpresa do serviço veio de Trás‑os‑Montes: o fumeiro de Vinhais marcou presença num alinhamento raro na capital. À mesa chegaram paio e linguiça assada, ambos artesanais, intensos e fiéis à matriz transmontana. Um início robusto, que prepara o palato para o que se segue.

A entrada o Caldinho das Casulas, onde a Chef Justa  recupera um clássico de raiz: arroz com cascas de feijão‑verde e enchidos de Vinhais. 

É um prato de memória, simples na aparência, mas profundo no sabor, que demonstra a capacidade da cozinha do Nobre em tratar a tradição com rigor.

No prato principal, o destaque do dia: 

Cuscus transmontano. Produzido de forma artesanal, à base de trigo‑sarraceno, este Cuscus não se limita ao papel de acompanhamento. Assume protagonismo, absorve o sabor dos enchidos e das castanhas e apresenta-se como um prato completo, equilibrado e fiel à sua origem.

A sobremesa — fondant de abóbora — encerra a refeição com leveza e doçura contida, mantendo a linha de conforto que marcou todo o percurso.

O Nobre confirma, mais uma vez, a sua capacidade de unir técnica, memória e hospitalidade num registo que Lisboa reconhece e continua a procurar.


A Francesinha Alfacinha no Aloquete

em Santos, Lisboa

A génese da "Francesinha" dispensa grandes explicações: nasceu no Porto, que a reivindica como património próprio. Mas se a cidade a viu nascer, também tem sido palco de algumas das suas maiores distorções. Não por se tratar de um prato fino, nunca o foi, mas porque depende de produtos cuja qualidade, quando cai, arrasta consigo todo o conjunto.

Ainda assim, há quem resista.

No Porto, onde a tradição se mantém mais íntegra, e em Lisboa, onde convivem interpretações competentes com autênticas caricaturas: sandes submersas em molhos de ketchup com picante, apresentadas como "Francesinha" apenas pela silhueta.

Recentemente, um amigo lisboeta levou‑me à Taberna Londrina, que considerava servir a melhor Francesinha da capital e arredores. A experiência, embora honesta, dificilmente mereceria um selo DOP, caso existisse.

Já no Marco, agora rebatizado como Aloquete, numa operação de branding que pretende sinalizar refinamento, encontro algo mais próximo da matriz portuense.

A carta apresenta várias versões, e continuo a considerar estas as mais fiéis ao que conheci na Invicta. Prefiro as que assentam em bife, uma adaptação posterior, em detrimento da versão com carne assada.

A Batatas Fritas são caseirinhas, bem fritas e com volume, quase diria que à maneira antiga.

 Os produtos são de qualidade evidente, e isso sente‑se em cada garfada envolvida num molho consistente, assente em caldo de carne, que se mantém estável visita após visita. Saio sempre satisfeito. E cheio. O colesterol, esse, que se entenda comigo mais tarde.

Daí até à Nanarella, para mim a melhor gelataria da zona, mesmo ali perto da Assembleia da Republica.  Faço o percurso quase em modo ritual. Ajuda na digestão e fecha a refeição com a dignidade que o prato exige.

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Localizado em Mem Martins, o restaurante Ninho Verde traz à mesa o sabor autêntico da Madeira, complementado com alguns pratos tradicionais do continente. A ementa reflete bem essa fusão, garantindo opções para todos os gostos.

Mais um ciclo para uma experiência gastronómica de cozinha no Pote, levada a cabo pelo Chef Renato Cunha. Evento que se iniciou em Maio e que ocorre todos os anos desde 2022 na Casa Ana Monteiro na Portela de Famalicão entre Maio e Setembro de 2025.

Samouco, na margem sul do Tejo, ainda no estuário, é um local tradicionalmente rico em marisco.

Nobre,

Lisboa

...e aos domingos é dia de...Cozido à Portuguesa

Já não precisa de apresentações: O Nobre serve aos domingos um cozido à portuguesa como poucos. Num prato tradicional que tem sido tantas vezes maltratado em inúmeros restaurantes onde, para o oferecer a preços acessíveis, se recorre a ingredientes de fraca qualidade  aqui mantém‑se a autenticidade e o respeito pela receita.

No Nobre, a excelência dos produtos é evidente, quase como se cada garfada fosse uma pequena degustação. Os enchidos, vindos da zona de Arganil, são todos caseiros e de sabores genuínos. O chouriço, consistente e de sabor equilibrado, com textura firme, combina na perfeição com a farinheira ou com a morcela de arroz. Já o chouriço de sangue destaca‑se pelo toque de vinagre que refresca a pasta tradicional envolta na tripa. 

Perdidos nos enchidos, não esquecer as restantes carnes que fazem parte deste buffet de luxo, são elas a carne de vaca e a galinha do campo, o do porco temos o entrecosto, a orelha e o chispe do mesmo que dão aquele toque do fruto proibido delicioso e que torna o nosso cozido tradicional tão delicioso.

As verduras, de sabor intenso, são cozidas de forma impecável, sem perderem as suas características nem a sua identidade. Para acompanhar, optámos por um vinho da zona da Régua, o Consensual Vinhas Velhas que no Nobre são etiquetados com a m,arca de confiança da Chef Justa, vinho que se revelou encorpado e ideal para enfrentar o chispe e os enchidos do cozido.

O cozido no Nobre é servido aos domingos e requer reserva antecipada. O buffet é supervisionado pela Chef Justa, que confia à irmã Ana a arte de manter a cozinha em perfeito equilíbrio, para deleite de uma clientela fiel e numerosa. As mesas, convenientemente distribuídas pelas várias salas do restaurante junto ao Campo Pequeno, recebem os visitantes com o profissionalismo e a experiência do Sr. António Nobre.


BAHR 

Largo de Camões, Lisboa 

Novo Menu 2025/2026

O novo menu de Inverno reflete a identidade do restaurante: uma cozinha que valoriza a sazonalidade, o território e a autenticidade dos sabores. Cada prato nasce de um princípio simples e consistente — trabalhar com o que a estação oferece no seu melhor momento, respeitando o ciclo natural dos ingredientes e a sua expressão mais pura.

A filosofia do Chef Fábio Pereira assenta na memória. As raízes familiares, os sabores que marcaram a infância e os gestos transmitidos de geração em geração são o ponto de partida para a criação contemporânea. Não se trata de replicar tradições, mas de reinterpretá‑las com técnica, rigor e sensibilidade. O resultado é uma cozinha que combina conforto e modernidade, onde cada elemento do prato tem uma função clara e uma história que o sustenta.

O menu de Inverno apresenta combinações que privilegiam profundidade de sabor, texturas equilibradas e uma ligação evidente ao território português. Do mar chegam peixes e mariscos trabalhados com precisão; da terra surgem legumes e plantas que ganham protagonismo; das memórias familiares emergem referências subtis que dão coerência ao conjunto. É uma cozinha que procura ser honesta, consciente e relevante, mantendo sempre o foco no sabor.

Este menu representa, assim, a evolução natural do trabalho do Chef: uma cozinha que olha para o passado como fonte de inspiração e para o presente como espaço de criação responsável. Uma cozinha que se afirma pela identidade e pela clareza, e que convida cada cliente a descobrir um Inverno pensado com intenção, técnica e respeito pela origem dos ingredientes.

Ritz, 

Póvoa do Varzim

01 de Dezembro 2025

Ritz: tradição, sabor e identidade local

O nome Ritz carrega responsabilidade, mesmo quando se instala numa terra tradicionalmente de pescadores, onde o jogo veio para ficar e dinamizar. Situado no coração da cidade, em plena rua central, o espaço revela-se confortável e acolhedor. A decoração náutica transporta-nos para o interior de um veleiro, em que só falta o baloiçar para completar a ilusão.

À mesa de quatro lugares, fixa e firme, o conforto é garantido para quem está em forma; já os mais barrigudos poderão sentir alguns desafios. 

O serviço, rápido e atento, não deixou margem para hesitações: na dúvida, recomendaram uma meia francesinha iguaria do Porto que tanto aprecio e sobre a qual sou exigente, talvez por conhecer bem a sua origem.

Para acompanhar, a cerveja Poveira, uma lager artesanal surpreendentemente frutada e leve, deliciosa e bem recomendada. O espaço, com distância adequada entre mesas, acomoda grupos reduzidos até seis pessoas de forma perfeita e descontraída. A frequência de clientes locais confirma a autenticidade do lugar: um restaurante que não vive apenas de nome, mas da confiança e da preferência de quem ali encontra sabor e identidade.

A francesinha chegou rapidamente, servida num prato adequado ao molho. Este revelou-se mais adocicado do que gostaria, mas ganhou vida com o picante caseiro, que me aproximou da versão que tanto aprecio. Sem ser a melhor francesinha que já provei, também não envergonhou, cumpriu o papel de satisfazer e deixar memória.

Último Porto

Doca de Alcantara , Lisboa


Dezembro de 2025

Na doca de Alcântara, onde a terra se rende ao Tejo e o rio avança, sereno, entre Lisboa e Almada, a ponte ergue-se como vigia de ferro e luz. 

Não é uma paisagem dócil: entre estivas e porta‑contentores, o cenário guarda a rudeza fabril que, paradoxalmente, lhe confere encanto.

É nesse contraste que nasce a verdadeira tasca lisboeta, instalada num edifício Art Deco, cuja elegância discreta contrasta com a aspereza industrial em redor. 

A zona, marcada por guindastes e contentores, é de facto um espaço quase de improviso, onde o quotidiano se mistura com a surpresa de encontrar um reduto de sabores autênticos.

Choco com Tinta Grelhado
Choco com Tinta Grelhado

Aqui, o peixe é rei e a refeição transforma-se em ritual. A esplanada, aberta como espada sobre o cais, convida ao olhar demorado sobre o rio, enquanto o interior, mais comedido, oferece o conforto suficiente para que o descanso acompanhe o prato.

O ambiente é de tertúlias espalhadas pelos clientes residentes, que não resistem à chamada do sol na esplanada e ao sabor que sai da grelha sempre activa. O carvão, incansável, confere aos peixes e moluscos um sabor inigualável, que chega às mesas acompanhado de verduras abundantes e temperos simples — apenas o necessário para deixar falar o que a terra e o mar nos dão de melhor.

A simpatia dos colaboradores vai-se sentindo nas piadas certeiras e na disponibilidade constante, criando uma atmosfera de familiaridade e calor humano. É um local a conferir e a usufruir como um dos últimos redutos da nossa gastronomia, onde o sabor simples e autêntico se alia à memória viva das tascas lisboetas.

Aqui, o sabor não se esconde atrás de ornamentos: é direto, como a paisagem que o rodeia. O Tejo passa, os guindastes vigiam, e no prato, o peixe fresco devolve ao corpo a lembrança de uma cidade que sempre viveu entre o mar e a terra.